Em pleno século XXI, mais de 45 milhões de pessoas pelo mundo vivem em condiçõesde trabalho precárias, análogas à escravidão. São homens e mulheres com direitos violados, empregados em diversas cadeias de produção. Cadeias que se expandem com a crescente demanda de um público consumidor. Milhões, inclusive crianças, sofrem em silêncio, às vezes sem poder pedir ajuda. É possível virar este jogo?
ABANDONADOS À SORTE
A escravidão foi abolida do Brasil em 1888. Porém, mais de 120 anos depois da assinatura da Lei Áurea, ainda há casos de brasileiros submetidos a empregos em condições degradantes, análogos ao trabalho escravo.
Leis nacionais e tratados internacionais, com punições severas a quem desobedecer as regras, não são suficientes para coibir jornadas extensas e exaustivas em atividades ligadas a setores da agropecuária, indústria têxtil, alimentícia e da construção civil. Não é um problema só nosso.
É mundial. De acordo com o Índice Global da Escravidão, produzido pela ONG Walk Free Foundation e divulgado em 2016, 45,8 milhões de pessoas de 167 países vivem uma situação de escravidão moderna.
São consideradas situações análogas à escravidão quando o trabalhador é empregado em condições degradantes, é forçado a exercer suas funções, cumpre jornadas exaustivas ou atua em servidão por dívida.
Dados do Ministério do Trabalho e Emprego mostram que entre 1995 e 2015, 49.816 pessoas foram libertadas de empregos em situações análogas à escravidão no Brasil. Todas as fiscalizações foram realizadas por Ministério do Trabalho, Ministério Público do Trabalho, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal.
De acordo com a organização Repórter Brasil, os trabalhadores libertados são, em sua maioria, migrantes internos ou externos, que deixaram suas casas para a região de expansão agropecuária ou para grandes centros urbanos. Buscavam novas oportunidades ou foram atraídos por falsas promessas.
RASTRO A SER SEGUIDO
Você sabe de onde vem o que você come? E o que você veste? E o que você compra para sua casa? No Brasil, ainda é difícil obter informações sobre a cadeia de produção e distribuição de principais setores econômicos. E isso não é bom, pois pode esconder irregularidades e fomentar desrespeito aos direitos humanos.
Um levantamento da Comissão Pastoral da Terra (CPT), a partir de dados do governo federal, mostra que 30% dos trabalhadores libertados entre 2003 e 2014 tinham sido contratados por empresas prestadoras de serviço para o setor pecuário; 25% tinham ligação com a cana-de-açúcar; 8% com carvoarias; e 10% dos trabalhadores foram contratados por cadeias de produção ligadas ao desmatamento e construção.
Somente em 2015, foram libertados pelo menos 1.111 trabalhadores de condições análogas à escravidão no Brasil, de acordo com o Ministério do Trabalho. Minas Gerais foi o estado com maior número de casos, seguido de Maranhão e Rio de Janeiro.
TRABALHO ESCRAVO É CRIME!
De acordo com o Código Penal, reduzir alguém a condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, é crime. O responsável, se condenado, pode ficar preso por até oito anos e ainda pagar multa. Recrutar trabalhadores para levá-los a territórios estrangeiros e aliciar pessoas, levando-as a outras partes do território nacional, também é crime.
Enquanto pessoas submetidas a trabalhos forçados sofrem as consequências de uma vida degradante, como a dos trabalhadores de carvoarias em diversas regiões do Brasil, seus empregadores lucram muito - ilegalmente. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), agência ligada às Nações Unidas, setores que utilizam mão de obra forçada têm lucro aproximado de US$ 150 bilhões todos os anos.
Já ouviu a expressão "quartinho de empregada"? Quem mora em apartamento deve ter visto alguma vez este espaço característico: pequeno, sem janelas, onde mal cabe uma cama. Mas, infelizmente, é onde muitas pessoas, principalmente mulheres, são alocadas quando contratadas para trabalhar em casas de família.
Nas Filipinas, por exemplo, mães deixam filhos para trás rumo a países mais ricos, como Cingapura, onde são contratadas como como babás ou em postos de serviços de limpeza. No entanto, muitas delas vivem literalmente aprisionadas nas casas, dormindo no chão muitas vezes, sem previsão de retorno para casa.
INFÂNCIA PERDIDA
O trabalho infantil é um grande problema social do Brasil. A extrema pobreza de algumas regiões obriga pais a enviarem seus filhos para as ruas, estradas ou lavouras para ajudarem na subsistência da família. Deixam para trás a escola e outros sonhos, com uma única certeza: a de que seu futuro será incerto.
Segundo a Constituição Brasileira, menores de 16 anos são proibidos de trabalhar, exceto como aprendizes - mas somente a partir dos 14. No entanto, dados oficiais mostram que, até 2014, estavam em situação de trabalho infantil – grupo de 5 a 13 anos de idade – 554 mil pessoas. Destas, 70 mil tinham entre 5 e 9 anos, e 484 mil, entre 10 e 13 anos de idade.
Por onde estão essas crianças? Misturadas à paisagem urbana – em semáforos, fábricas, depósitos - ou empregadas em áreas rurais, em atividades agrícolas, de mineração, carvoarias, ou mesmo trabalho doméstico.
Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), 168 milhões de crianças no mundo estão em situação de trabalho infantil. Quase 85 milhões atuam em atividades perigosas. A agricultura é a área que mais emprega crianças e adolescentes irregularmente.
CRIANÇA NÃO TRABALHA, DÁ TRABALHO.
In the 21st century, more than 45 million people worldwide live in precarious working conditions, analogous to slavery. These are men and women whose rights are violated, employed in various production chains. Chains that expand with the growing demand of a consumer public. Millions, including children, suffer in silence, sometimes unable to ask for help. Is it possible to turn this situation around?
ABANDONED TO THEIR FATE
Slavery was abolished in Brazil in 1888. However, more than 120 years after the signing of the Golden Law (Lei Áurea), there are still cases of Brazilians subjected to jobs in degrading conditions, analogous to slave labor.
National laws and international treaties, with severe punishments for those who disobey the rules, are not enough to curb long and exhausting working hours in activities related to the agricultural, textile, food, and construction sectors. It's not just our problem.
It's a global problem. According to the Global Slavery Index, produced by the NGO Walk Free Foundation and released in 2016, 45.8 million people in 167 countries live in situations of modern slavery.
Situations analogous to slavery are considered to occur when a worker is employed in degrading conditions, is forced to perform their duties, works exhausting hours, or is subject to debt bondage.
Data from the Ministry of Labor and Employment shows that between 1995 and 2015, 49,816 people were freed from jobs in situations analogous to slavery in Brazil. All inspections were carried out by the Ministry of Labor, the Public Prosecutor's Office for Labor, the Federal Police, and the Federal Highway Police.
According to the organization Repórter Brasil, the freed workers are mostly internal or external migrants who left their homes for the region of agricultural expansion or for large urban centers. They were seeking new opportunities or were attracted by false promises.
A TRAIL TO FOLLOW
Do you know where your food comes from? And what you wear? And what you buy for your home? In Brazil, it is still difficult to obtain information about the production and distribution chain of major economic sectors. And this is not good, as it can hide irregularities and foster disrespect for human rights.
A survey by the Pastoral Land Commission (CPT), based on data from the federal government, shows that 30% of workers freed between 2003 and 2014 had been hired by companies providing services to the livestock sector; 25% were linked to sugarcane; 8% to charcoal production; and 10% of workers were hired by production chains linked to deforestation and construction.
In 2015 alone, at least 1,111 workers were freed from conditions analogous to slavery in Brazil, according to the Ministry of Labor. Minas Gerais was the state with the highest number of cases, followed by Maranhão and Rio de Janeiro.
SLAVE LABOR IS A CRIME!
According to the Penal Code, reducing someone to a condition analogous to slavery, whether by subjecting them to forced labor or exhausting workdays, is a crime. If convicted, the perpetrator can be imprisoned for up to eight years and also pay a fine. Recruiting workers to take them to foreign territories and enticing people to other parts of the national territory is also a crime.
While people subjected to forced labor suffer the consequences of a degrading life, such as charcoal workers in various regions of Brazil, their employers profit greatly – illegally. According to the International Labour Organization (ILO), an agency linked to the United Nations, sectors that use forced labor profit approximately US$150 billion every year.
Have you ever heard the expression "maid's quarters"? Anyone who lives in an apartment has probably seen this characteristic space at some point: small, without windows, barely big enough for a bed. But, unfortunately, this is where many people, especially women, are placed when hired to work in private homes.
In the Philippines, for example, mothers leave their children behind for wealthier countries like Singapore, where they are hired as nannies or in cleaning services. However, many of them live literally imprisoned in these homes, often sleeping on the floor, with no prospect of returning home.
LOST CHILDHOOD
Child labor is a major social problem in Brazil. The extreme poverty in some regions forces parents to send their children to the streets, roads, or fields to help support the family. They leave behind school and other dreams, with only one certainty: that their future will be uncertain.
According to the Brazilian Constitution, minors under 16 years of age are prohibited from working, except as apprentices – but only from the age of 14. However, official data shows that, up to 2014, 554,000 people were in situations of child labor – the group aged 5 to 13 years. Of these, 70,000 were between 5 and 9 years old, and 484,000 were between 10 and 13 years old.
Where are these children? Mixed into the urban landscape – at traffic lights, factories, warehouses – or employed in rural areas, in agricultural activities, mining, charcoal production, or even domestic work.
According to the International Labour Organization (ILO), 168 million children worldwide are in situations of child labor. Almost 85 million work in dangerous activities. Agriculture is the area that employs the most children and adolescents irregularly.
CHILDREN DON'T WORK, THEY CREATE WORK.
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