Por quatro séculos, a Região Portuária foi termômetro de profundas transformações no Rio de Janeiro. Centro geográfico de uma metrópole de 12 milhões de habitantes, esse pedaço de terra às margens da Baía de Guanabara nunca esteve tão visível aos cariocas e visitantes.
HISTÓRIAS DO PORTO
Ataques de corsários franceses a um Rio de Janeiro recém-fundado por portugueses deixaram como lição a importância de se defender as áreas ocupadas na orla da Baía de Guanabara. Isto influenciou a expansão do povoamento para a área da Região Portuária. O tempo passou e, em meados do século XVIII, o local, até então inóspito e pouco valorizado, passaria a receber embarcações diversas que se deslocavam entre o continente e o mar, tornando ali um inferno logístico. Esta costa não era uma linha contínua de terra, resultado do aterramento feito no século passado, mas sim composta por ilhas e sacos (pequenas enseadas) nas localidades da Gamboa, Saúde, Santo Cristo e Caju, especialmente entre o Morro da Conceição e o da Saúde.
A partir de 1808, o estímulo vindo de Dom João VI para a movimentação de carga no porto do Rio intensificou atividades de importação e exportação na área.
A PEQUENA ÁFRICA
Se falassem as pedras do Cais do Valongo, desenterradas em 2011 após mais de um século escondidas sobre o concreto, diriam que, por ali, passaram até 1 milhão de africanos escravizados entre séculos XVI ao XIX. Somente de 1811 e 1831, foram 500 mil, de acordo com historiadores. O Valongo não era apenas uma praia de desembarque, mas um complexo comercial do mercado escravagista, com armazéns, entrepostos de vendas, lojas que vendiam diversos artefatos. E havia o Lazareto, um local onde os escravos ficavam em quarentena, cujas paredes foram descobertas nas recentes escavações. O local foi "escondido" em 1843 durante a construção do Cais da Imperatriz, que recebeu a princesa Tereza Cristina Maria, do Reino das Duas Sicílias.
Até meados do século XVIII o desembarque dos escravos africanos era feito na Praça Quinze. O Marquês de Lavradio, em 1769, transferiu o desembarque para “fora da cidade”, que naquele tempo terminava no Mosteiro de São Bento.
O Rio, sozinho, em quatro séculos de tráfico negreiro, recebeu 2,4 milhões de africanos, de acordo com historiadores. O Valongo não era apenas uma praia de desembarque, mas um complexo comercial do mercado escravagista.
O Cais da Imperatriz foi construído em cima das pedras que antes abrigavam o comércio de escravos. Uma forma de apagar às pressas as imagens tristes da escravidão vividas naquela região.
CEMITÉRIO DOS PRETOS NOVOS
Longe das visões das classes mais ricas, um descampado do tamanho de um campo de futebol profissional recebeu entre 1774 e 1830 o despejo de escravos que não resistiam à rotina de açoites. Muitos chegavam à Colônia bastante doentes, quase mortos. Durante muito tempo, a localização do Cemitério dos Pretos Novos era desconhecida. Até que, em 1996, durante obras na casa do número 36 da Rua Pedro Ernesto, foram encontradas ossadas que seriam de jovens provavelmente originários de Angola, Moçambique e Quênia. Estava desvendada, por acaso, a exata localização do cemitério, que recebeu 50 mil cadáveres em apenas 56 anos.
RIO INDUSTRIAL E MODERNO
Em meados de 1850, o café, considerado “ouro negro”, se torna a principal engrenagem econômica do Brasil, sendo exportado para outros países pelo Rio. A fabricação e reparos navais, além das estradas de ferro, foram decisivas para o processo de industrialização na Região Portuária. Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, se torna um grande investidor daquela área, que recebe obras de modernização entre o fim do século XIX e início do século XX. A partir de 1903, o presidente da República Rodrigues Alves e o então prefeito do Rio, Francisco Pereira Passos, realizam uma profunda mudança urbanística entre a Praça Quinze e o bairro do Caju.
Em 1910, uma parte do porto, como conhecemos atualmente, foi inaugurada e passou a receber grandes embarcações, além de visitantes ilustres.
Além de obras viárias, como as avenidas Rio Branco e Central, outro símbolo da chegada da modernidade ao Rio e à Região Portuária foi a construção do Edifício A Noite, 1º arranha-céu do país. O Edifício A Noite foi inaugurado na Praça Mauá em 1929. Ele abrigou várias empresas, sendo a mais importante delas a Rádio Nacional.
SURGE A PERIMETRAL
Uma veia nervosa de concreto no meio da região central do Rio de Janeiro. Assim era conhecido o Elevado da Perimetral, via de ligação entre a Zona Sul e as principais portas de entrada da cidade. Começou a ser planejado na década de 1940, quando o Rio ainda era a capital do Brasil e já dava indícios de que, anos depois, sentiria os reflexos do aumento da frota automotiva. Criada com caráter de servir como auxiliar da Avenida Rio Branco, a via era uma antiga aspiração de engenheiros que buscavam soluções viárias. O projeto saiu do papel em 1957 e a primeira parte do viaduto, interligando as avenidas General Justo e Presidente Vargas, foi inaugurada em 1960. O restante da Perimetral, da Praça Mauá até a Ponte Rio-Niterói, foi erguido ao longo de 18 anos, e entregue em 1978.
O atraso na construção da Perimetral não impediu que a obra se tornasse, na época, símbolo da integração da Região Metropolitana do Rio de Janeiro e via de extrema eficiência.
For four centuries, the Port Region has been a barometer of profound transformations in Rio de Janeiro. The geographic center of a metropolis of 12 million inhabitants, this piece of land on the shores of Guanabara Bay has never been so visible to locals and visitors.
PORT STORIES
Attacks by French corsairs on a Rio de Janeiro recently founded by the Portuguese taught the importance of defending the occupied areas along the Guanabara Bay shoreline. This influenced the expansion of settlement into the Port Region. Time passed and, in the mid-18th century, the place, until then inhospitable and undervalued, began to receive various vessels traveling between the mainland and the sea, turning it into a logistical nightmare. This coastline was not a continuous line of land, a result of land reclamation done in the last century, but was composed of islands and coves (small inlets) in the localities of Gamboa, Saúde, Santo Cristo, and Caju, especially between Morro da Conceição and Morro da Saúde.
From 1808 onwards, the encouragement from Dom João VI for cargo movement in the port of Rio intensified import and export activities in the area.
LITTLE AFRICA
If the stones of the Valongo Wharf, unearthed in 2011 after more than a century hidden under concrete, could speak, they would say that up to 1 million enslaved Africans passed through there between the 16th and 19th centuries. Between 1811 and 1831 alone, there were 500,000, according to historians. Valongo was not just a landing beach, but a commercial complex of the slave trade, with warehouses, sales depots, and shops selling various artifacts. There was also the Lazaretto, a place where slaves were quarantined, whose walls were discovered in recent excavations. The site was "hidden" in 1843 during the construction of the Empress's Wharf, which received Princess Teresa Cristina Maria of the Kingdom of the Two Sicilies.
Until the mid-18th century, the landing of African slaves took place at Praça Quinze. In 1769, the Marquis of Lavradio transferred the landing to "outside the city," which at that time ended at the Monastery of São Bento.
Rio de Janeiro alone, in four centuries of the slave trade, received 2.4 million Africans, according to historians. Valongo was not just a landing beach, but a commercial complex of the slave trade. The Empress's Wharf was built on top of the rocks that previously housed the slave trade. A way to hastily erase the sad images of slavery experienced in that region.
NEW BLACKS CEMETERY
Far from the sight of the wealthier classes, an open field the size of a professional football field received, between 1774 and 1830, the dumping ground for slaves who could not withstand the routine of whippings. Many arrived in the Colony very sick, almost dead. For a long time, the location of the New Blacks Cemetery was unknown. Until, in 1996, during works at house number 36 on Rua Pedro Ernesto, skeletal remains were found that were believed to be those of young people probably originating from Angola, Mozambique, and Kenya. The exact location of the cemetery, which received 50,000 corpses in just 56 years, was revealed by chance.
INDUSTRIAL AND MODERN RIO
In the mid-1850s, coffee, considered "black gold," became the main economic engine of Brazil, being exported to other countries through Rio. Shipbuilding and repairs, as well as railroads, were decisive for the industrialization process in the Port Region. Irineu Evangelista de Souza, the Baron of Mauá, became a major investor in that area, which underwent modernization works between the end of the 19th and the beginning of the 20th century. From 1903 onwards, President Rodrigues Alves and the then mayor of Rio, Francisco Pereira Passos, carried out a profound urban transformation between Praça Quinze and the Caju neighborhood.
In 1910, a part of the port, as we know it today, was inaugurated and began to receive large vessels, as well as illustrious visitors.
In addition to roadworks, such as Rio Branco and Central Avenues, another symbol of the arrival of modernity to Rio and the Port Region was the construction of the A Noite Building, the country's first skyscraper. The A Noite Building was inaugurated in Praça Mauá in 1929. It housed several companies, the most important of which was Rádio Nacional.
THE PERIMETRAL HIGHWAY EMERGES
A concrete nerve vein in the middle of downtown Rio de Janeiro. That's how the Perimetral Elevated Highway was known, a connecting road between the South Zone and the city's main entry points. Planning began in the 1940s, when Rio was still the capital of Brazil and already showing signs that, years later, it would feel the effects of the increase in the number of cars. Created to serve as an auxiliary to Avenida Rio Branco, the road was a long-standing aspiration of engineers seeking road solutions. The project came to fruition in 1957, and the first part of the viaduct, connecting Avenida General Justo and Avenida Presidente Vargas, was inaugurated in 1960. The rest of the Perimetral, from Praça Mauá to the Rio-Niterói Bridge, was built over 18 years and completed in 1978.
The delay in the construction of the Perimetral did not prevent the work from becoming, at the time, a symbol of the integration of the Rio de Janeiro Metropolitan Region and an extremely efficient road.
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