Pessoa

Nêgo Bispo

1959-2023

Informações Gerais

Descrição
Antônio Bispo dos Santos (Povoado Papagaio, Vale do Rio Berlengas, atual município de Francinópolis, Piauí, 1959 - São João do Piauí, 2023). Lavrador, poeta, escritor, professor, ativista político. Militante do movimento social quilombola e de direitos pelo uso da terra, Nêgo Bispo é e eternamente será uma das principais vozes do pensamento das comunidades tradicionais do Brasil.
Biografia Resumida

Antônio Bispo dos Santos (Povoado Papagaio, Vale do Rio Berlengas, atual município de Francinópolis, Piauí, 1959 - São João do Piauí, 2023). Lavrador, poeta, escritor, professor, ativista político. Militante do movimento social quilombola e de direitos pelo uso da terra, Nêgo Bispo é e eternamente será uma das principais vozes do pensamento das comunidades tradicionais do Brasil.

Morador do Quilombo Saco-Curtume, localizado em São João do Piauí, Nêgo Bispo possuiu trajetória educacional típica da realidade do povo quilombola. Foi formado por mestres e mestras de ofícios por meio da oralidade e de ensinamentos e saberes ancestrais. A partir deles e das demandas comunitárias, chegou à educação formal, fazendo parte da primeira geração de sua família a concluir o ensino fundamental. Desde muito jovem, desenvolveu a habilidade de traduzir para a linguagem escrita das cartas os sentimentos, as sabedorias e as vivências de seus parentes e vizinhos.

Em 2007, lançou seu primeiro livro, Quilombos, modos e significados, reeditado em 2015 com novo título, Colonização, quilombos. Modos e significações. Na obra, desenvolveu o conceito de contracolonização, que contestou o atual modelo de desenvolvimento econômico ao qual o Brasil e os demais países da América Latina se rendem. Em contraposição a esse projeto de sociedade autodestrutiva, Bispo propôs uma alternativa civilizatória baseada na biointeração, na qual a relação entre humanos e natureza é de comunhão prazerosa.

A lógica da biointeração tem como princípios extrair, utilizar e reeditar, que se realizam em uma relação comunitária, coletiva, em que a capacidade de cultivar, coletar e compartilhar são inerentes. Esse conceito é definido como contracolonização do conceito de desenvolvimento sustentável e é comum aos quilombos, aos terreiros das religiões de matriz africana e à capoeira. Para Bispo, na biointeração, as coisas se reeditam; no desenvolvimento sustentável, elas se reciclam.

Com ampla repercussão, a obra passa a figurar nas ementas de cursos de graduação e pós-graduação em diferentes universidades brasileiras. Esse trabalho aborda os pontos importantes da formação sócio-histórica e cultural brasileira e traduz os ensinamentos de seu povo para os moldes acadêmicos. Nesse sentido, Bispo ressignificou conceitos e ideias consagradas nesse meio sob a ótica do pensamento quilombola.

Devido ao seu engajamento e sua luta pela terra, ganhou destaque à frente do Sindicato de Trabalhadores/as Rurais de Francinópolis e da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no estado do Piauí. Atuou ainda como membro da Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Piauí (Cecoq/PI) e da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq).

 

Sua relação com o ambiente acadêmico se iniciou com o projeto Encontro de saberes, na Universidade de Brasília (UnB), em que atua como professor e mestre na disciplina Confluências Quilombolas Contracolonização no primeiro período do ano de 2017 [1].

Em vez de ser chamado de intelectual, Bispo preferiu ser referido como relator de pensamentos e saberes. Ele foi crítico do que chama de mercantilização do saber e defende, em contrapartida, a confluência cosmológica e o compartilhamento de conhecimentos. Confluência é um conceito criado pelo poeta no processo de análise da contracolonização dos saberes: trata-se da lei que rege a relação de convivência entre elementos da natureza e que ensina que "nem tudo o que se ajunta se mistura". Contrapondo-se a essa lei, a transfluência é a lei que rege as relações de transformação dos elementos da natureza e ensina que "nem tudo o que se mistura se ajunta" [2].  

Em sua trajetória, Antônio dos Santos Bispo construiu diálogos sobre resistência negra e quilombola, além de apresentar alternativas de sociabilidade e de relação sadia com a natureza a partir da sabedoria dos povos tradicionais. Consolidou-se como uma uma voz ativa, poética e poderosa na defesa dos direitos dos quilombolas e da terra.

Notas

1. Encontro de Saberes é um projeto do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa (INCTI) da Universidade de Brasília (UnB). Seu propósito é a criação de um espaço dialógico com mestres e mestras tradicionais, como indígenas, quilombolas e outros grupos e povos cujo conhecimento foi historicamente relegado pela academia.

2. SANTOS, A. B. Colonização, quilombos. Modos e significações. Brasília: INCTI/UnB, 2015, p. 89.

Fonte: https://www.ancestralidades.org.br/biografias-e-trajetorias/nego-bispo

Nacionalidade
Atividade profissional
Lavrador
Poeta
Escritor
Professor
Ativista político

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