3,6 bilhões de pessoas já sofrem com as consequências das mudanças climáticas em todo o mundo, principalmente as populações e os ecossistemas mais vulneráveis. O alerta foi dado pelo IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, no segundo volume do Sexto Relatório de Avaliação (AR6). Lançado em fevereiro deste ano, cerca de 270 pesquisadores de quase 70 países participaram da elaboração do documento que ainda afirma que o planeta provavelmente atingirá ou excederá o aquecimento de 1,5°C proposto pelo Acordo de Paris nas próximas duas décadas.
Não é só isso. Em abril, o IPCC também lançou o terceiro e último volume antes do relatório síntese, que será lançado em setembro e consolida as informações de todos os estudos produzidos ao longo do ciclo AR6. Reunindo mais de 260 pesquisadores de 65 países, o estudo advertiu que caso a governança global mantenha as atuais políticas públicas para o clima, a Terra irá aquecer 3,2°C até o final do século, mais do que o dobro do limite do Acordo de Paris. Para enfrentar este cenário é necessário que os recursos financeiros destinados à redução das emissões seja seis vezes maior do que é hoje. E quando se considera os custos dessas medidas de adaptação, cortar emissões não impacta de forma significativa o PIB global. É esperado que o PIB do mundo dobre até 2050, enquanto as mitigações a serem adotadas de agora a 2025 produziriam uma redução de 0,04 à 0,09 ponto percentual por ano na riqueza global.
“O trabalho contínuo de pesquisa do Observatório do Amanhã a partir dos relatórios divulgados pelo IPCC leva aos visitantes do Museu do Amanhã as informações mais atualizadas sobre os seus efeitos das mudanças climáticas que já são vividos em todo o planeta, assim como as ações para enfrentá-las, seja por meio da mitigação ou da adaptação aos seus efeitos”, explica Davi Bonela, gerente de desenvolvimento científico do museu. “Com os novos relatório do IPCC, o museu já realizou mais de 60 atualizações na sua Exposição de Longa Duração nos últimos seis meses sobre esse que é um dos maiores desafios globais do nosso tempo’’, conclui. O Observatório do Amanhã é apresentado pela Shell.
Aumento da temperatura média do planeta já provoca extinções de espécies
Ainda de acordo com o segundo relatório do AR6, as mudanças climáticas também já causaram perdas de espécies endêmicas, aumento de doenças, eventos de mortandade em massa de plantas e animais, reestruturação de ecossistemas, aumento de áreas queimadas por incêndios florestais e declínios nos principais serviços ecossistêmicos. Isso vem causando perdas econômicas e alterando as práticas culturais e atividades recreativas em todo o mundo.
Além disso, as mudanças climáticas estão afetando negativamente a saúde física e mental das pessoas em todo o planeta. A ocorrência de doenças de origem alimentar e hídrica relacionadas ao clima está aumentando cada vez mais, assim como a incidência de doenças transmitidas por vetores. Problemas cardiovasculares e respiratórios também têm sido associados ao aumento da exposição à fumaça de incêndios florestais. Além disso, alguns desafios da saúde mental, traumas resultantes de eventos climáticos e a perda de meios de subsistência e cultura estão relacionados ao aumento das temperaturas. Os serviços de saúde, que são destinados a proteger os indivíduos desses efeitos, estão sendo interrompidos por eventos extremos, como inundações. Se a humanidade seguir por esse caminho, mais de 9 milhões de mortes relacionadas ao clima por ano são projetadas até o final do século, sob um cenário de altas emissões de gases de efeito estufa.
Metade das emissões de CO2 ocorreram nos últimos 30 anos e continuam aumentando
Segundo o relatório, da Revolução Industrial, em 1750, até hoje, a humanidade já emitiu 2,4 trilhões de toneladas de CO2, sendo que 48% dessas emissões foram para o ar desde 1990 e 17% foram lançadas no ar apenas na última década. Existe uma imensa diferença regional e social entre as emissões: os países mais pobres do mundo e as nações-ilhas, as principais vítimas dos impactos climáticos, contribuíram juntos com menos de 4% das emissões do mundo em 2019.
Para que a humanidade consiga estabilizar pelo menos 50% do aquecimento global no limite de 1,5ºC recomendado pelo Acordo de Paris, as emissões globais de gases de efeito estufa precisam atingir seu pico entre 2020 e 2025 e cair 43% até 2030. Entretanto, em 2019, por exemplo, essas emissões foram de 59 bilhões de toneladas, um valor 12% maior do que em 2010 e 54% maior do que em 1990.
O Brasil no relatório do IPCC
O impacto das mudanças climáticas também é e continuará sendo sentido no Brasil. De acordo com o relatório do IPCC, a incidência de secas extremas na Amazônia deve aumentar os custos de tratamento de doenças respiratórias de 20% a 50%, e a incidência de malária de 5% a 10% até 2030, implicando em um alto custo de vida, pois as pessoas serão impedidas de realizar seus meios de subsistência. Espera-se também que essas secas extremas acelerem e intensifiquem a migração de comunidades tradicionais e povos indígenas para os centros urbanos, no qual suas qualidades de vida devem diminuir, uma vez que ocuparão áreas vulneráveis.
A biodiversidade nacional também está seriamente ameaçada. Ainda na Amazônia, o desmatamento para limpar terras agrícolas é a principal causa da diminuição do número de árvores, reduzindo a cobertura florestal em média de 13.900 km² ao ano entre 1988 a 2020.
Entretanto, a gravidade dos efeitos das mudanças climáticas no Brasil ainda pode ser reduzida de acordo com escolhas futuras. Em 2014, os territórios indígenas e outras áreas protegidas representaram o equivalente a 58,5% de todo o carbono armazenado na floresta amazônica e tiveram a menor taxa de desmatamento (2,1%) e incidência de incêndios, evidenciando a eficácia dos saberes tradicionais na salvaguarda de importantes serviços ecossistêmicos. Estima-se que os territórios indígenas contribuam com pelo menos US$ 5 bilhões por ano para a economia global por meio da produção de alimentos e energia, compensações de emissões de gases de efeito estufa e regulação e estabilidade climática.
Por Felipe Floriano, jornalista
