A organização do Sistema Único de Saúde (SUS), elemento-chave para o Brasil a enfrentar o coronavírus com nível de qualidade médica superior a de outros países das mesmas dimensões, devia se espraiar para a área da mobilidade urbana. A criação de uma espécie de SUS do transporte público foi defendida pelas debatedoras Luize Sampaio e Joyce Trindade, convidadas do quarto encontro virtual do Diálogos para a Sustentabilidade, promovido pelo Museu do Amanhã na última quarta-feira (12 de agosto). O debate teve mediação de Zé Lobo, ativista e fundador da ONG Transporte Ativo.
Luize, jornalista da Casa Fluminense e autora de uma série de reportagens sobre o tema, destacou que algumas cidades do Rio de Janeiro, como Maricá e Volta Redonda, conseguiram estabelecer modelos amparados por subsídios públicos que garantem a tarifa zero. De acordo com a constituição, ela lembrou, o transporte público é igual a educação e saúde — ou seja, um direito de todos.
Eu estudei na PUC (na Gávea) e morava em Madureira. O Bilhete Único universitário era restrito ao ônibus, o que me custava mais tempo de deslocamento. Agora na pandemia, a prefeitura do Rio resolveu retirar ônibus de circulação, prejudicando quem não parou de trabalhar presencialmente. O transporte público é um serviço essencial e um direito social. Ele deveria ser tratado como uma espécie de SUS. Cada parte (município, estado e federação) entraria com a sua etapa de contribuição, disse Luize.
Concordando com o ponto de vista, Joyce Trindade, graduada em gestão pública pela UFRJ e cofundadora e diretora do Projeto Manivela, sublinhou que os sistemas públicos de controle operam pela lógica da política mais rasteira, impedindo avanços.
Todos sabem que saúde e educação são direitos básicos, mas transporte público, ninguém se lembra que também é. Os órgãos de fiscalização do governo são meros espaços de barganha eleitoral, e de loteamento de pessoas. A estrutura do Estado é orientada para escantear as pessoas mais pobres. As mães não têm tempo de educar seus filhos, ficar com suas famílias. Porque passam horas no transporte público, disse.
Rio deixa protagonismo no ciclismo
Zé Lobo, programador visual que criou a ONG Transporte Ativo em 2003, lembrou que a cidade do Rio, outrora protagonista nacional em incentivo aos deslocamentos por bicicleta, vem perdendo protagonismo nos últimos anos. Ele afirmou que há um gigantesco potencial de alavancagem do transporte ativo (de propulsão humana) em duas rodas desperdiçado:
As políticas de incentivo de uso da bicicleta praticamente inexistem. Mas mesmo sem suporte governamental, o carioca usa mais e mais a bicicleta. Houve aumento (desse tipo de modal) de mais de 100% de usuários de 2013 a 2018 na cidade do Rio. É incrível que 34% dos ciclistas façam integração da bicicleta com transporte público. O sistema de aluguel de bicicletas tem 50% de sua demanda na cidade do Rio, embora esteja em seis cidades do país. É um potencial gigantesco jogado fora.
Por fim, Zé Lobo questionou um modelo de smarcities divorciado da coletividade. “A smartcity é feita para quem? Para as minorias. Nas regiões metropolitanas, populações estão completamente excluídas. Deveríamos estar pensando em abraçar toda a população, numa dinâmica mas justa”.
Por Emanuel Alencar
