Sobre Sonhos, Futuros e os Yanomami

05/04/2024
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Temos uma rotina extremamente dinâmica e corrida. Diminuir o tempo de sono, geralmente é uma prática comum quando pensamos em “economizar” tempo para outros compromissos diários ou tarefas pessoais.

Aproveitar o longo trajeto no transporte público para tirar um cochilo, bocejar de sono o dia todo e acumular cansaço ao longo da semana são mais comuns do que deveriam ser. Nós acabamos nos acostumando com esses, (não tão) pequenos sacrifícios para suprir as mais variadas demandas.

Apesar de se conectar com o ato de dormir, quando falamos de sonhos — ou o ato de sonhar, as possibilidades são muitas.

Podemos sonhar sim dormindo, mas sonhamos acordados também. Geralmente os sonhos que temos acordados são as metas pessoais que buscamos no decorrer de nossas vidas e demandam ações para se tornarem realidade — a curto, médio ou longo prazo.

Sonhar, às vezes, não é tão simples, infelizmente; seja pela falta de tempo livre acordado ou pelas insuficientes horas de sono, o sonhar acaba sendo prejudicado, e isso também afeta a forma como imaginamos e concebemos o presente e o futuro.

Se nossos sonhos são negligenciados (por nós, outras pessoas ou os tomadores de decisões), uma hora eles simplesmente se tornam um desejo que, não necessariamente, se realizará.

Encontrar tempo livre na rotina corrida ou dormir por mais tempo talvez possa ser o seu sonho. Aqui, te convido a apreciar e expandir a ideia sobre ele e conectar esse ato com passado, presente, futuro e os Yanomamis.

Vou te apresentar um dos pontos de vista dos Yanomamis, uma população indígena geograficamente ampla que vive entre a região Norte do Brasil e a Venezuela¹,².

Nos contos comunitários, Omama é o criador do povo Yanomami e seu filho, o primeiro xamã responsável por proteger os Yanomami na terra.

Os xamãs para os Yanomamis são os protetores espirituais da comunidade, as pessoas determinadas para acessar e conectar o mundo visível (mundo que experienciamos acordados e/ou vivos) ao mundo não invisível (mundo que experienciamos dormindo ou quando já não estamos mais vivos) através de rituais.

O ato de sonhar dormindo, tem grande importância nas decisões coletivas do dia a dia da comunidade já que, para eles, os sonhos são experiências reais³ . Compartilhar e interpretar tais sonhos é uma atitude comum e pode influenciar, inclusive, as tarefas que serão ou não realizadas no restante do dia, dependendo do teor do sonho.

Quando pensamos na nossa forma de conceber e viver o mundo é difícil darmos esse papel tão crucial aos nossos sonhos. Principalmente se considerarmos os que ocorrem enquanto dormimos.

Na nossa sociedade, não temos a figura do xamã conectando mundos e interpretando os sonhos e os sonhos que interferem em nossa vida, geralmente são os que temos acordados, as metas pessoais de vida.

Pensando nessas metas, a questão pode ficar ainda mais complexa, já que eles são desejos comuns de muitas pessoas, mas concebidos de forma individual, sem um compartilhamento a nível social. Um exemplo comum: comprar/financiar a casa própria. Compra-lá envolve ter dinheiro, mas antes disso, individualmente, a pessoa precisa estar empregada para conseguir o dinheiro. Envolve também que essa pessoa esteja capacitada para realizar o trabalho, ou seja, em condições de saúde física e mental para exercer tal atividade. Ela precisa se alimentar, se locomover por diferentes locais e de tempo para conseguir a casa desejada.

A casa é uma conquista individual, ou de um grupo de pessoas, (família, amigos, parentes, etc) mas indiretamente, para consegui-la necessitamos de outras pessoas e de outros sonhos (visto que cada pessoa tem um ou mais sonhos em comum), consegue perceber isso? Comprar uma casa, ainda que seja para uma única família, nesta linha de pensamento pode ser um sonho de futuro coletivo! Coletivo no sentido de ser sonhado junto, em sincronia com muitas outras pessoas que almejam o mesmo e muitas vezes não percebemos isso!

A leveza dessa ideia é que, em sociedade, muitos futuros e sonhos são possíveis de coexistirem, assim como já acontece no nosso presente e igualmente aconteceu no passado. Cada ser é único, seja geneticamente ou buscando conseguir um sonho.

Entretanto, diferente dos Yanomamis, não nos debruçamos coletivamente sobre os sonhos e isso dificulta o processo de imaginar os diferentes futuros que são sonhados em nossa sociedade. Geralmente, quando pensamos no futuro temos dificuldade em visualizar cenários tranquilos, bons de se viver e harmoniosos. E mais dificuldade ainda em pensar em outros seres vivos que não sejamos nós, seres humanos, nós mesmos ou nossos familiares.

A vivência das populações indígenas com seus sonhos (neste texto o exemplo de uma comunidade Yanomami) pode ser uma das várias possibilidades de mudança na busca por futuros, no plural, que são sonhados, compartilhados e vividos por diferentes pessoas. Os futuros podem ser construídos a partir do compartilhamento de sonhos, sejam os que temos enquanto dormimos, seja os que temos acordados.

Tomadas de decisões, sejam as feitas em casa, no trabalho ou no governo de um país, por exemplo, devem ser baseadas em uma ampla conversa onde várias pessoas sejam ouvidas e consideradas em suas jornadas. Não só ouvidas, mas acolhidas na construção de futuros, onde seus sonhos-meta de vida, como a casa tão sonhada, não seja só mais um sonho de futuro individual, mas que tenha importância nos rumos coletivos a serem decididos.

Tomemos Ailton Krenak como um propositor de sonhos. Sendo o primeiro indígena a ocupar uma cadeira, em 127 anos de existência da Academia Brasileira de Letras, leva com ele e promete: “promover uma sinfonia. Estimada pelos linguistas em 180 línguas indígenas”.

Isso no mês que se exalta a luta dos povos indígenas do Brasil (19 de abril).



Por Susana Melo, bióloga e educadora ambiental

Bióloga e educadora ambiental.

Susana Melo