É possível imaginar futuros otimistas?

14/11/2023
theme
url


A natureza não é percebida da mesma forma por todos, cada indivíduo tem a sua própria visão. Há uma pluralidade de significados acerca do que é natureza e em determinadas culturas, essa palavra ou outra com sentido análogo, nem mesmo existe. Isso ocorre em algumas culturas ameríndias, afinal, para esses povos, a natureza e o ser humano são um só. O ser humano faz parte de um todo e vive em plena integração com o mundo que os cerca.

Para o ser humano moderno, porém, a relação infelizmente é outra. A visão hegemônica moderna considera a natureza como um obstáculo, um “serviço ecossistêmico”, uma commodity ou até como uma fonte de conflitos. Ou seja, para estes, a relação com a natureza é irrisória ou até mesmo nem existe, perdeu o sentido. Essa falta de conexão com o todo foi, em grande parte, o que resultou na nova era geológica que estamos vivendo, o Antropoceno. A primeira que tem a interferência tão grande de uma espécie, que chega a levar seu nome. Nossa espécie afetou o planeta, a ponto de colocar em risco a sua própria sobrevivência, através da complexa crise socioambiental que cravamos; caracterizada pela emergência climática, a perda de biodiversidade, a poluição e diversos outros fatores que estão se tornando cada vez mais frequentes devido à influência da espécie humana no planeta.

Diante desse cenário, o que esperar do futuro? Geralmente relacionamos o Antropoceno à ideia de fim: fim dos recursos, fim da biodiversidade, fim da humanidade e do planeta. Isso acaba gerando ideias negativas e distópicas sobre o futuro, que por um lado são importantes para percebermos o problema que causamos, mas que por outro podem nos deixar estagnados rumo a uma mudança transformadora.

É muito difícil agir se a nossa única visão de futuro for o fim, pois as pessoas baseiam suas ações naquilo que acreditam sobre a sociedade e sobre o futuro. Dessa forma, nós também precisamos imaginar um futuro desejável e possível para conseguir buscar caminhos para ultrapassar a crise.

 Já existem projetos que buscam contrabalancear visões distópicas sobre o futuro, como é o caso das Sementes do Bom Antropoceno. Esse projeto leva em consideração que um futuro desejável provavelmente será radicalmente diferente do mundo que conhecemos e vivemos atualmente. No entanto, esse futuro será composto por muitos elementos já existentes, chamados de “sementes”, que poderão combinar-se de formas únicas e surpreendentes para criar um futuro quase inimaginável. As sementes são iniciativas que representam uma diversidade de visões de mundo e valores, e melhoram a dinâmica social, ecológica ou econômica de um território, contribuindo para um futuro mais próspero, justo e diverso. 

Iniciativas como as Sementes do Bom Antropoceno ocorrem em vários lugares ao redor do mundo, inclusive no Brasil, como é o exemplo do Movimento Viva Água Baía de Guanabara. O Movimento possui múltiplos atores que buscam conectar e integrar esforços em prol da segurança hídrica e resiliência climática da Região Hidrográfica da Baía de Guanabara (RJ) e seus 17 municípios, por meio de estratégias de conservação da natureza e transição para uma economia sustentável. Ele atua realizando ações de conservação e recuperação de ecossistemas naturais, além do incentivo ao empreendedorismo com impactos sociais e ambientais positivos.

Olhar para esses exemplos na prática nos leva a tentar entender os aspectos cruciais que podem construir um “bom Antropoceno”. O Movimento Viva Água traz a integração entre diferentes atores, reunindo a comunidade local, organizações, instituições, universidades, governo e empreendedores, para gerar um impacto socioambiental positivo. Essa integração, que para ser alcançada, demanda comunicação e diálogo, é essencial para construirmos futuros plurais, que não aborde apenas uma visão moderna e hegemônica de como o futuro pode ser. As pessoas podem ter opiniões muito diferentes sobre o que implica uma boa qualidade de vida e sobre quais são os valores mais importantes para a felicidade e o bem-estar humanos. Ou seja, são necessários múltiplos caminhos para alcançar uma série de futuros alternativos desejáveis.

Nós precisamos reconhecer que a diversidade de pensamentos, formas de ser e meios para conectar as pessoas e a natureza são vitais para superar desafios locais e globais. Futuros melhores e mais inclusivos precisam abraçar a complexidade, a heterogeneidade e a espontaneidade. É preciso diálogo e construção coletiva, pois um futuro para todos não pode ser imaginado por poucos.

  



Por Vitória Holz, bióloga, mestre em Ecologia e pesquisadora da Cátedra UNESCO de Alfabetização em Futuros do Museu do Amanhã.

Bacharel em Ciências Biológicas (Ecologia) e Mestre em Ecologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pesquisando sobre o tema de Soluções baseadas na Natureza para o Estado do Rio de Janeiro.

Vitoria Holz