Todo contador de histórias é um leitor de outras histórias. Se você é um apaixonado por ficção científica e se encanta com a possibilidade de desbravar novos universos, então a exposição Sai-Fai: ficção científica à brasileira é um destino imperdível para você. Sai-Fai nos convida a embarcar em uma viagem rumo ao futuro, através de uma mostra que desafia os limites entre realidade e imaginação que dá vida à ficção especulativa brasileira.
A história começa lá em 2021, quando o Museu do Amanhã promoveu uma oficina de escrita de ficção especulativa no Laboratório de Atividades do Amanhã (LAA). Inspirados em movimentos como o afrofuturismo e o futurismo indígena, 19 autores de todo o território brasileiro criam contos repletos de realidades alternativas, utopias, distopias e aventuras fantásticas. Essa oficina, que contou com a mentoria de expoentes da ficção no país, se tornou o ponto de partida para a exposição que hoje nos fascina.
A exposição Sai-Fai: Ficção Científica à Brasileira é uma experiência que transcende as páginas dos contos escritos na oficina. 10 artistas visuais brasileiros ilustram os contos, colocando a palavra escrita em um contato sensível com as artes visuais. O livro digital, que faz parte da exposição, nos leva a viajar por múltiplas narrativas. Som, imagem e palavra se fundem no espaço do museu, convidando-nos a questionar as fronteiras entre o que é real e como a imaginação pode ser uma tecnologia.
E para enriquecer ainda mais essa experiência, fizemos uma pergunta aos autores: Qual livro mudou sua vida?
Pau dos Ferros/RN, 1988
“Qual livro mudou sua vida?”, “Qual é o seu filme preferido?” ou “Qual música te toca profundamente?”… Eu adoro responder a este tipo de pergunta porque elas me ajudam a relembrar de temas e obras importantes para mim, e também porque eu sempre acabo dando respostas diferentes. Dessa forma, consigo compartilhar mais histórias e trabalhos de artistas que me influenciam. Desta vez, escolhendo um livro que influenciou bastante as minhas perspectivas, vou recomendar a HQ “Até o Fim” de Eric Peleias (roteiro), Gustavo Borges (desenhos) e Michel Ramalho (cores). É uma história que começa pelo destino das personagens, mostrando a coexistência de maneira implacável e ao mesmo tempo leve e altruísta. HQ brasileira altamente recomendada.
Rio de Janeiro/RJ, 1995
Me deparei com essa pergunta diversas vezes durante a faculdade de Letras, mas escolho um que li depois de me formar. O poder, da Naomi Alderman, chegou nas minhas mãos numa época de transição, em que estava me redescobrindo como escritora e mulher queer. O que eu queria trazer para a literatura era algo que me questionava bastante e esse foi um dos livros que mais me deixou próxima da resposta (não posso dizer que é uma resposta final, já que ainda estou viva e escrevendo). Por mais que esse livro seja difícil e a escrita não seja incrível, me encantou a possibilidade de ter histórias que tratam sobre a raiva feminina, essa fúria que nós temos em relação ao patriarcado e às diversas injustiças que ele trouxe pro mundo. Como essa autora e muitas outras que me inspiram, eu não quero escrever confortos. Eu quero incomodar. Mesmo que seja com uma simples história com apenas personagens femininas que se passe em Júpiter.
Belém/PA, 1985
“Aos pés de Guaymiaba” é um fruto de minha vivência atravessando essas mesmas ilhas, dos parentes que encontrei nas trilhas da literatura e da arte indígena contemporânea, mas sobretudo das obras e contações que tive acesso no caminho. No entanto, “Lá não existe lá”, de Tommy Orange, me arrebatou com tanta potência e emoção que foi a partir dele me encorajei para escrever ficção.
O romance é arrebatador para compreender as experiências de indígenas em contexto urbano, derrubando estereótipos e escavando no asfalto de Oakland uma parte da história indígena na América do Norte para nos fazer refletir sobre ancestralidade, identidade (e a perda da memória étnica), a vida em comunidade na cidade e nas tecnologias que continuamos dominamos enquanto habitamos esses lugares. E ainda que a opressão e os reflexos do colonialismo sejam marcadores na obra, a resistência, os encantamentos naturais do ser indígena, a intimidade com o território e o respeito com a memória dos antepassados me deixou boquiaberto. Esse livro me inspirou a recontar histórias a partir do nosso ponto de vista, agora partindo desses imensos olhos d’água na Bacia Amazônica.
Rio de Janeiro/RJ, 1976
Lançado aqui no Brasil nos anos oitenta pela coleção Argonauta, “A Irmandade do Talismã”, de Clifford D. Simak, é uma das obras literárias de ficção que mais me marcou. Nessa obra, o autor mistura Hard ficção com Fantasia, essa fusão de estilos me fascina até hoje.Meus trabalhos atuais têm influência direta de séries, filmes e HQ’s dos anos 80’s e 90’s. E uso o sai-fai para abordar temas inspiradores ou envoltos de situações corriqueiras, mas sempre tentando mostrar parte da dualidade de nossa psique e como podemos ou não nos mantermos humanos perante a essas situações. Tento mostrar parte disso em minha história “Ameaça Exterior”.
Manoel Vitorino/BA, 1994
Não olhe atrás da porta, de Lia Neiva. O livro que li no final de minha infância, que me mostrou que existia uma palavra, o insólito, para todas aquelas gamas de histórias reais e inventadas, orais e escritas, de perto e de longe, histórias que mexiam com a densidade do ar e provocavam medo. Esse livro cultivou a minha imaginação. Até hoje lembro das palavras da contracapa, que diziam “Não olhe atrás da porta, a menos que deseje mergulhar no mundo do insólito e do fantástico”.
Não é um livro de ficção científica, mas o que escrevo tem mais de fantástico e incomum do que científico. Posso dizer que qualquer coisa que venho a escrever é inspirado nos sentimentos causados pelas histórias de Lia Neiva, não desprezando as minhas outras influências.
Santo André/SP, 1989
“É difícil escolher um livro só, mas posso escolher um que me abriu portas. Sempre fui um leitor de fantasia e ficção científica e nunca me interessei muito por livros fora desses gêneros. Foi um livro que comprei por acidente, numa banca de jornais por dez reais chamado a Fantástica Vida Breve de Oscar Wao que me abriu um mundo de ficções que poderiam ser tão fantásticas quanto qualquer mundo imaginário e futuros distópicos. Acabei me deparando com um quase romance histórico sobre uma família de imigrantes que não conseguia parar de ler por um segundo, apesar das imensas notas de rodapé. Foi um livro que me fez perceber que a realidade pode ser tão fantástica quanto qualquer outro universo e que o que move uma história no fim do dia são personagens cativantes, não importa quantos. Me fez enxergar a literatura latino americana com outros olhos e buscar ir além de Pedro Bandeira e a coleção vagalume com a própria literatura brasileira.”
Alvorada/RS, 1983
Definitivamente foi A Metamorfose de Franz Kafka. A inquietação contida e principalmente o estranhamento me pareceu a única forma condizente de ver a loucura que é o mundo. É muito comum os ficcionistas sentirem-se obsoletos ao criar ficção fantástica quando se deparam com os absurdos da realidade que se transpostos em uma história soariam forçados, quebrando a suspensão da descrença. Kafka já sabia contornar os absurdos, com mais absurdos muito antes deles chegarem ao ponto em que estamos. Aprendi muito com este autor, antes de tomar gosto pela ficção científica, antes de Philip K. Dick e Úrsula Le Guin me maravilharem com seu humanismo e empatia, antes de ter contato com o aprendizado maravilhoso que tive na oficina. Quando escrevi O Bará de Marte queria trazer o estranhamento do protagonista com o mundo que o cerca, com sua rede de apoio e principalmente consigo mesmo. Diallo não existiria sem Kafka.
Brasília/DF, 1997
Eu sempre gostei de ficção científica e cresci assistindo Jornada nas Estrelas com meu pai, também sempre fui apaixonada por mundos fantásticos com magia e dragões. Daí um dia virei vegetariana e comecei a sentir que faltava um pouco de empatia no SciFi de modo geral- especialmente os blockbusters com alienígenas malvadões e destruição planetária. Não, não, eu precisava de algo mais…Frankenstein. O olhar para si, o ostracismo, a visão da “alienígena” como alguém excluída da sociedade pela incompreensão, por pensar/agir de forma diferente e levantar suspeitas sobre sua sanidade (mesmo quando não há nada suspeito, literalmente só diferente).
Ali foi que eu vi na ficção científica uma maneira de passar uma mensagem, tanto sobre minhas visões antiespecistas quanto sobre um futuro melhor e mais agradável para todos, todas e todes — inclusive “aliens” terrestres, que não sabem falar e não são obrigados a viver na nossa sociedade civilizada, os animais.
São Paulo/SP, 1982
São muitas as influências que foram, aos poucos, dando contornos para a minha forma de colocar histórias no papel. Passei pelos mundos mágicos dos RPGs, pelos livros da Coleção Vagalume, por uma infinidade de HQs de super-heróis, pelo horror de Stephen King, pela fantasia na esquina da realidade de Neil Gaiman, e até descobri com André Vianco que o Brasil era um ótimo palco para histórias fantásticas. Porém, uma inspiração que, da adolescência até hoje, continua a me marcar com a mesma potência é a narrativa de Andróides sonham com ovelhas elétricas? (1968), de Philip K. Dick, adaptada para o cinema por Ridley Scott como Blade Runner (1982). Fui primeiro capturado pelo filme, para depois chegar ao livro, e ambos ainda me são exemplos de como especular sobre o que significa ser um humano ou um não humano, o que é viver e morrer, e como nos entrelaçamos com uma realidade difícil de definir sem perder as conexões com tudo o que nos cerca.
São Paulo/SP, 1988
Apesar do forte apreço pelo que é da nossa terra, pelo que é brasileiro e por muitas outras pessoas autoras, o que mais me impactou criando em mim uma forte junção entre mitos, tecnologia e ancestralidade germinou em uma leitura muito imersiva proporcionada pela coleção especial de HQs conhecida como Promethea, do escritor Alan Moore. Nela, o autor aborda temas que surgem de concepções interpretadas como antigos conhecimentos religiosos e mitológicos, caminhando sobre conceitos místicos da realidade enquanto vemos uma completa jornada evolutiva para a protagonista, que encontra suas verdades muito além do que a matrix do cotidiano a revelava. Ressignificar sua história através de coragem, conhecimento, memória e ancestralidade traçam um paralelo perfeito entre o conto que tive a felicidade de produzir para nossa antologia e essa coleção magnífica desse escritor da literatura britânica.
Belém/PA, 1996
“A história da sua vida e outros contos”, do Ted Chiang, foi uma antologia de narrativas curtas que me mostraram uma nova percepção sobre ficção científica e o quão íntimo esse gênero literário pode se tornar. Suas histórias marcam profundamente e nos faz refletir sobre tempo, cultura, pertencimento e identidade.Ted Chiang é uma de minhas inspirações na escrita do sai-fai e, sem dúvida, suas narrativas me deram coragem para tratar de um tema tão incômodo como o racismo, fetichismo e desumanização tratados em “Nas bordas de quem Eu sou”.
São Gonçalo/RJ, 1999
“Essa pergunta me fez questionar se eu já encontrei o tão sonhado livro que mudou a minha vida. E sim, já. O livro Corte de Nevoa e Fúria, da Sarah J. Maas. Definitivamente muito modinha, mas o fato é: foi esse livro que me mostrou que palavras podem te levar a outros mundos, te fazer viver aventuras, te fazer vivenciar sentimentos a flor da pele. Esse livro, e a saga todinha, me fizeram sentir parte de uma história criada por uma escritora. E a Sarah conseguiu me mostrar que para envolver alguém as vezes não precisamos de mil palavras difíceis ou desenvolvimentos que só o autor vai entender. Uma escrita fácil, mas com profundidade torna um livro em um momento de paz para um leitor. Uma escrita cheia de sentimentos pode te fazer viver mil vidas em uma só, através de letrinhas em páginas amareladas.
Porto Alegre/RS, 1993
Em “Kindred” de Octavia Butler, me vi devorando uma obra em poucas horas, sentindo angústia em cada página. Encontrar uma história que mistura ficção e realidade, repleta de metáforas sobre as relações de poder e o racismo, me fez enxergar que eu tinha predecessoras que, com muita luta, abriram caminho na ficção fantástica para mulheres negras como eu. Explorar o passado questionando as estruturas que sustentam o presente era algo intrínseco à literatura que eu desenvolvia. A percepção de que o que eu produzia tinha um lugar de pertença e que esse lugar era o afrofuturismo se deu a partir desta obra. Assim como Dana, a protagonista, eu também era uma jovem escritora atravessada pelo tempo, assim como Octavia Butler eu também era doente de uma obsessão positiva que “[…] tem a ver com não ser capaz de parar apenas porque você está com medo e cheia de dúvidas. A obsessão positiva é perigosa. Tem a ver com não ser capaz de parar de jeito nenhum.”(BUTLER,1989)
Fortaleza/CE, 1989
Minha vida mudou quando encontrei na biblioteca da escola um exemplar de Contos de amor rasgados, de Marina Colasanti. Eu, que achava que Livro de verdade devia ficar em pé sozinho, descobri que literatura podia ser feita de outro jeito: fantástica, direta, intimista, engraçada… Um peteleco bem dado no nariz ao invés do tapa de cara dura dos clássicos. Foi aí que entendi que também poderia experimentar na escrita no laboratório da folha de papel.
Minha vida já tinha mudado antes dela e mudaria ainda muitas vezes depois. Conheci Colasanti, Falcão, então Pratchett e Vonnegut, depois Chiang e Borges e cada um foi desenrolando mais fios pro meu tecido. Mas a costura de micélio / mar, meu conto na Sai-fai, veio mesmo de Ursula K. Leguin. Uma autora de fantasia que me ensinou a trocar a história matadora pela bolsa de ficção e que literatura também pode ser feita de outro jeito: fantástica, densa, intimista e esquisita. E foi isso que tentei fazer.
Rio de Janeiro/RJ, 1987
“É sempre difícil responder a essas perguntas com um título só. Acho que meu processo de entendimento do mundo e, por consequência, de criação, passa obrigatoriamente por associações de várias fontes. No caso da escrita ficcional e de humor, dois livros muito claramente me empurraram para essa direção: Comédias da Vida Privada, do Luiz Fernando Veríssimo, e O Guia do Mochileiro das Galáxias, do Douglas Adams. São dois grandes autores que, partindo de recortes muito diferentes, trazem perspectivas muito similares sobre comportamentos e tendências curiosas do ser humano. Com o Veríssimo, eu aprendi o quanto a vida cotidiana pode ser fantástica. Com o Adams, eu conheci cenários fantásticos estranhamente parecidos com o nosso cotidiano. Sou apaixonado pela escrita dos dois e me inspiro demais na maneira como eles olham pro mundo e pras pessoas.”
Juiz de Fora/MG, 1988
Até hoje nenhum outro livro teve tanto impacto sobre minha vida quanto “O estrangeiro”, de Albert Camus. Um homem que mata por causa do sol, porque fazia muito calor naquele dia, é como resumiria, se fosse preciso. Ele me ensinou que livros podem nos asfixiar e fazer com que nos enxerguemos miseráveis e exigir que aceitemos essa miséria e, ainda assim, oferecer algum tipo de fraternidade, pedir que continuemos. Com ele aprendi que, mais do que sentido ou moral, histórias precisam de vida. Não é um livro que tenha me inspirado no modo de escrever (ainda não sei como escrevo talvez porque escreva pouco), é mais sobre uma maneira de enxergar, e que é possível também viver na escrita, na letra, em cada gesto.
As respostas dos autores à pergunta “Qual livro mudou sua vida?” adicionam camadas de significado à mostra, enriquecendo ainda mais nossa jornada pelo mundo de Sai-Fai. É um convite para tornar-se um leitor ativo, desbravando mundos inexplorados e construindo, lado a lado com os escritores, futuros desejáveis.
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Serviço
Exposição Sai-Fai: Ficção Científica à Brasileira
Local: Museu do Amanhã
Data: De 25 de julho a 12 de novembro
Horário: Das 10h as 18h.
Endereço: Praça Mauá, 1 — Centro, Rio de Janeiro — RJ
Prepare-se para embarcar em uma jornada literária épica, onde o futuro se entrelaça com a imaginação e o conhecimento. Te esperamos lá!
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Por Museu do Amanhã