A história da ciência é um testemunho de mulheres que desafiaram estereótipos, preconceitos e superaram enormes obstáculos em suas trajetórias. Elas fizeram descobertas revolucionárias, mas para isso, trilharam caminhos tortuosos e carregados de adversidades. Segundo o Secretário Geral da ONU, António Guterrez, a discriminação contra mulheres na ciência e na tecnologia é o resultado de séculos de patriarcado e de falsas verdades. Homens são mais fortes, tem facilidade em trabalhos manuais e possuem um raciocínio mais lógico e ágil. Já as mulheres são frágeis, emotivas, têm mais habilidades sociais e nascem com um instinto materno inquestionável. Eles gostam de azul, elas, de rosa. Quantas vezes vocês já se depararam com afirmações desse tipo?
O mito da mulher frágil parece ser um dos mais difundidos por aí. No entanto, pesquisas recentes têm desconstruído e questionado essas crenças que apenas reforçam padrões desiguais. Uma pesquisa feita na Universidade de Duke, nos Estados Unidos, revela que, ao contrário do que muitos afirmam, as mulheres conseguiram sobreviver até 4 anos a mais do que os homens em momentos históricos como epidemias, fome e escravidão. Na pandemia da Covid-19, por exemplo, 58% dos casos de mortalidade foram de pacientes masculinos. Isso me faz questionar: Por que, então, a mulher é o sexo frágil?
Outra pesquisa recentemente divulgada traz evidências que questionam o estereótipo histórico do homem caçador e da mulher responsável pelo lar. Ao analisar dados coletados de 63 sociedades nos últimos 11 mil anos, os cientistas chegaram à conclusão de que em 79% dessas sociedades, as mulheres também exerciam o papel de caçadoras. Além disso, pesquisas atuais revelam que, para além de serem habilidosas na caça, foram as mulheres que impulsionaram um dos maiores avanços da humanidade: a agricultura. Como lembra bem a agricultora orgânica Selene Hammer Tesch,
“foi da inteligência das mulheres que se descobriu que algumas sementes nasciam e outras serviam para comer. Daí surgiram os plantios, as colheitas, a fartura”.
A verdade é que a ciência, durante muitos anos, se enganou com relação às mulheres. E sabemos o porquê, afinal, quando há apenas homens na ciência, ela refletirá seus interesses e vieses.
Hoje, as mulheres são cerca de 54% das estudantes de doutorado no Brasil, o que representa um aumento impressionante de 10% nas últimas duas décadas. Porém, uma pesquisa conduzida pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares de Ação Afirmativa da UERJ mostra que ao avançar em suas carreiras científicas, as mulheres encontram cada vez menos outras mulheres caminhando ao seu lado. A sub-representação feminina cresce à medida que os cargos ganham mais poder. E mesmo ocupando posições similares, mulheres ganham, em média, 20% menos do que homens.
“Pela maior parte da História, ‘anônimo’ foi uma mulher”. Essa frase é da escritora britânica Virgínia Woolf. Motivada por ela, escrevo este texto, com o objetivo de difundir nomes de mulheres cientistas, e semear a ideia de que a ciência é um território que nos pertence.
1- Fotógrafo: Alfred Eisenstaedt | Fonte: National Portrait Gallery, Smithsonian Institution | Imagem: Rachel 2- Bertha no laboratório | Fonte: Arquivo Nacional, Fundo Correio da Manhã. 3- Imagem: Johanna | Fonte: divulgencia.blogspot.com | Crédito: Divulgação.
Rachel Carson foi uma bióloga marinha que denunciou e alertou ao mundo sobre os perigos dos agrotóxicos em seu livro “Primavera Silenciosa”, publicado na década de 60. Ela causou um impacto profundo no movimento ambientalista e provocou significativas transformações na política ambiental dos Estados Unidos.
Outra pioneira foi Johanna Döbereiner. Indicada ao Prêmio Nobel e considerada a cientista que revolucionou a agricultura. No Brasil, ela focou seus estudos em buscar alternativa ao uso de adubos químicos. O resultado? Uma economia anual de 2 bilhões de dólares somente na produção de soja, transformando o Brasil no segundo maior produtor mundial desse grão. Além é claro, de todo o impacto na conservação dos rios e solo.
Bertha Lutz foi outra mulher gigante! Bióloga, especialista e apaixonada por sapos, sua vida se dividia entre o feminismo e a ciência. Bertha foi uma das primeiras organizadoras do movimento feminista no Brasil, liderou a busca pela igualdade política e lutou pelo direito das mulheres brasileiras de votar e serem eleitas. Sua dedicação às causas feministas inspirou muitas outras mulheres cientistas a se envolverem na política e na luta pela igualdade de gênero.
Imagem: [URL] | Cientistas: Jaqueline Goes de Jesus e Ester Sabino | Fonte: Instituto de Medicina Tropical da USP: https://f.i.uol.com.br/fotografia/2020/03/06/15835424345e62f0a260f98_1583542434_3x2_lg.jpg
Ester Sabino e Jaqueline Goes de Jesus, também entraram para a história ao desvendarem informações importantes sobre a genética do Coronavírus, contribuindo para o enfrentamento à pandemia de Covid-19.
Na área médica, Françoise Barré-Sinoussi teve uma contribuição crucial para a ciência e para a humanidade no final do século XX. Ela foi uma das cientistas responsáveis por identificar o vírus HIV como a causa da AIDS, abrindo caminho para o desenvolvimento de tratamentos contra a doença, os quais hoje avançam em direção à cura.
E como não citar Nise da Silveira, uma revolucionária! Para ela a ciência e a criatividade caminham juntas para iluminar o desconhecido. O que é arte para um, é cura para outro. Foi a partir desse pensamento que Nise lutou e transformou os tratamentos de saúde mental no Brasil.
Nas ciências humanas, Lélia Gonzáles é uma das intelectuais e ativistas mais importantes da nossa história! Considerada a primeira mulher negra a se dedicar aos estudos de raça e gênero no Brasil, Lélia desenvolveu forte pesquisa e militância na área. Ela foi indispensável para refletir sobre o papel da mulher negra na sociedade brasileira.
1- Foto por U. Montan | Cortesia da The Nobel Foundation. 2- Nise em exposição no Museu de Imagens do Inconsciente (1966) | Crédito: Assessoria de Imprensa do CCBB Rio de Janeiro. 3- Lélia e o conceito de Amefricanidade focando a questão do negro da diáspora | Fonte: Reprodução.
Outra cientista de grande importância é Helena Theodoro: a primeira mulher negra a adquirir o título de doutora em filosofia e a tratar o samba como uma ciência dentro da universidade. Ela é uma grande referência na pesquisa sobre cultura negra, carnaval, samba e arte, experiências religiosas africanas e afro-brasileiras e relações raciais.
Na área das ciências exatas, até hoje pouco ocupada por mulheres, a matemática e escritora Ada Byron foi uma pioneira na ciência da computação no século XIX. Ela escreveu o primeiro algoritmo a ser executado em uma máquina, estabelecendo as bases para a revolução digital que ocorreria no século XX. Estudos sobre Inteligência Artificial atuais ainda fazem referência ao trabalho desenvolvido por Ada.
Outro nome, esse um pouco mais conhecido é o de Marie Curie. Desde 1901, somente 3% das pessoas que ganharam o Prêmio Nobel em categorias científicas foram mulheres. Marie Curie fez história como a primeira mulher a receber um Prêmio Nobel e como a única pessoa a ganhar dois Prêmios Nobel em áreas diferentes: física e química. Suas pesquisas sobre radioatividade abriram novos horizontes na ciência.
E mais uma cientista inspiradora: Elisa Frota Pessôa. Ela foi uma das primeiras mulheres a se graduar em Física no Brasil, enfrentou inúmeras adversidades ao escolher trilhar essa carreira e teve papel fundamental na institucionalização da Física no país, sendo cofundadora do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF).
E o que une todas essas mulheres? A paixão pela ciência, principalmente, as histórias inspiradoras e o desejo por futuros com mais igualdade, oportunidades, reconhecimento e cada vez mais mulheres na ciência!
Por Nina Pougy, Gerente da Escola de Ciências do Amanhã