Na maior floresta tropical do planeta, a vida, a microbiota, as plantas, os fungos, os animais, os povos indígenas, ribeirinhos e outras populações entrelaçam-se em equilíbrio dinâmico e imponente sobre uma geografia de montanhas e planícies, dos Andes à foz do rio Amazonas e ao oceano Atlântico.
No mundo, a história humana dos últimos séculos alcançou gigantescas conquistas, inimagináveis até pouco tempo atrás, como a enorme redução da mortalidade infantil, grande aumento da expectativa de vida, fantásticos avanços da ciência, da saúde, do universo digital, entre outros.
As conquistas da civilização não escondem seus fracassos. Ainda há um bilhão de pessoas em situação de insegurança alimentar, mesmo com comida disponível para todos e muito mais. A desigualdade atinge níveis abjetos. A sensação de desconexão com a história e com a natureza provoca ansiedade e alienação. Desafios são o caminhar da humanidade.
Mas no século XXI, a longa estrada chegou a uma encruzilhada inédita. No tempo curto da espécie humana (não no tempo longo da natureza do planeta), nos tornamos muito poderosos, movemos mais matéria do que os processos naturais, capturamos e transformamos grande parte dos territórios, da luz do sol e das águas para atender nossos interesses. Fizemos sem qualquer preocupação com a capacidade da natureza de se recompor e continuar a nos oferecer clima, biodiversidade, solos férteis, água, ar limpo e condições necessárias para a sustentabilidade da vida como conhecemos em nosso horizonte de tempo.
O equilíbrio dinâmico do Holoceno foi rompido. Estamos iniciando uma nova era, o Antropoceno, a época do homem. Se nossos passos nessa nova jornada continuarem, de forma arrogante e ignorantemente apartada da biosfera à qual pertencemos, a desrespeitar os limites do planeta, o futuro será destrutivo para a vida natural e muito perigoso para a civilização. Quem seremos nós? O que será nossa época?
Se nossas escolhas nos conduzirem a uma visão mais holística e justa do significado do desenvolvimento humano, à humildade frente à natureza e a sua regeneração no planeta, ainda assim não saberemos quem seremos nós e o que será nossa época, mas o verde das matas e da esperança estará presente.
A Amazônia mora agora no coração da encruzilhada humana. Acabar com o desmatamento e outras formas de destruição da floresta tem muitos significados fundamentais.
Significa vencer o crime e a corrupção (sempre por detrás da destruição na região) e construir uma governança democrática, mais justa e menos violenta.
Significa preservar a biodiversidade como fonte de recursos para o desenvolvimento sustentável da região, do Brasil e, principalmente, do bem-estar de suas populações.
Significa garantir as chuvas necessárias à agricultura e às grandes cidades do Centro-Oeste e Sudeste do Brasil.
Significa, frente à ameaça da Sexta Grande Extinção da Vida na história natural do planeta — dessa vez, com a nossa espécie como causa — dizer não ao Antropoceno como época da morte e ao humano como carrasco.
Significa, diante do imenso estoque de CO2 lançado na atmosfera devido ao desmatamento, evitar a grande catástrofe planetária dos piores cenários do aquecimento global.
Significa preservar a vida, as culturas e os saberes dos povos originários e das populações tradicionais, com suas grandiosas contribuições à humanidade. E acrescentar um marco de dignidade à história do Brasil, tão sofrida pelas cicatrizes de dois genocídios e a consolidação de uma desigualdade inaceitável.
A Amazônia já foi pensada como a selva a ser conquistada. Em um lindo paradoxo, no Antropoceno, é a selva que precisamos que nos conquiste. Grita a selva (e a ciência também) que o todo nunca será conhecido, por mais longa que seja a caminhada, e que assumir essa humildade é civilizatório. Gritam os povos originários que a ameaça não é a selva, a ameaça é a pretensão onipotente, narcísica e impossível de ser civilizada, sem reconhecer a selva.
Todas essas dimensões das escolhas que faremos sobre o futuro da Amazônia são magnificamente apresentadas na exposição “Fruturos — Tempos Amazônicos”, inaugurada hoje no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, e em cartaz até junho de 2022. Boa visita, boas reflexões, bons “fruturos” amazônicos.
Por Sergio Besserman, economista.
