Percebe-se que muitas pessoas, sejam cientistas ou do senso comum, não sabem o que é ou para que serve a divulgação científica. Muitos não compreendem a real importância dessa ferramenta, tornando mais difícil sua plena execução. Então, qual é o verdadeiro objetivo da divulgação científica? É tornar o acesso à pesquisa científica mais democrático, permitindo que a sociedade conheça e discuta assuntos que impactam a população. Seu propósito é aproximar a sociedade da ciência. Além disso, essa aproximação evidencia que a comunidade científica é essencial para avançarmos em áreas como educação, tecnologia e saúde, pois tudo está, de alguma forma, interligado.
A Educação e a Ciência no Brasil
Sabe-se que, tratando-se do Brasil, primeiramente é imprescindível termos um panorama sobre a educação da população brasileira. Resultados recentes da pesquisa “Alfabetiza Brasil”, realizada pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), revelam uma lacuna na educação nacional: em 2021, 56,4% dos estudantes do 2º ano do ensino fundamental não estavam alfabetizados.
(Foto: Divulgação)
Quando pensamos em divulgação científica, é essencial considerar os diferentes Brasis dentro do Brasil.
O recorte socioeconómico é vital para atingirmos nossos objetivos. Se pensarmos na divulgação científica e em como tornar a ciência mais acessível ao público em geral, é necessário abordar quem está fazendo ciência no Brasil. Aqueles que têm acesso a uma educação de qualidade e conseguem chegar e permanecer na universidade, geralmente possuem uma base familiar e/ou financeira.
A Questão da Representatividade
E, se a base da pirâmide, constituída por pessoas pretas e pobres, não alcança esses espaços, como esperar por uma ciência diversa? Segundo o último censo do IBGE, em 2022, na população de 18 a 24 anos, 36,7% das pessoas brancas estavam estudando, enquanto entre pretos e pardos, a taxa foi de 26,2%. Entre os brancos desse grupo etário que frequentavam escola, 29,2% cursavam graduação, ante 15,3% das pessoas de cor preta ou parda.
Linguagem na Divulgação Científica
Outro fator determinante na divulgação científica é a linguagem. Pode parecer simples, mas não é. Se estou me dirigindo a pessoas fora do meio acadêmico, preciso adotar uma linguagem acessível para alcançar o público leigo. Não posso usar a mesma linguagem de um artigo científico! É fundamental entender o público-alvo, especialmente em um país com considerável índice de analfabetismo.
A Pandemia e a Ciência
A pandemia da COVID-19 nos ofereceu um panorama mais amplo dessa relação entre a comunidade científica e o público geral. Como o Brasil, que tinha recordes de vacinação, transformou-se em um país com resistência às vacinas? Em que momento as correntes da internet ganharam mais credibilidade do que as palavras dos cientistas?
A divulgação científica também desempenha um papel crucial na valorização da ciência. Como é possível valorizar algo desconhecido? Mostrar à sociedade o trabalho realizado nas universidades, além de ser uma forma de prestar contas sobre o uso do dinheiro público, é uma maneira de evidenciar a importância da ciência para o desenvolvimento do país.
(Imagem: Google fotos)
A divulgação científica também desempenha um papel crucial na valorização da ciência. Como é possível valorizar algo desconhecido? Mostrar à sociedade o trabalho realizado nas universidades, além de ser uma forma de prestar contas sobre o uso do dinheiro público, é uma maneira de evidenciar a importância da ciência para o desenvolvimento do país.
(Clipe: MC Fiot / Vacina Butantan)
Ciência e Cultura Popular
A canção “Bum Bum Tam Tam” de MC Fioti, produzida pela Kondzilla Records, é um exemplo de como a cultura popular pode promover a ciência. Fioti transformou sua música em um hino pró-vacinação, incentivando a população a se imunizar contra a COVID-19. Esse é apenas um dos muitos exemplos que mostram como é possível unir a ciência e a cultura popular para comunicar-se de maneira eficaz com o público.
Finalmente, precisamos refletir sobre as diferenças e buscar uma comunicação mais eficiente. Precisamos de mais diversidade na ciência.
É fundamental que mais pessoas, especialmente aquelas pertencentes a grupos sub-representados, se sintam parte do processo científico e percebam sua importância. Isso inclui mulheres, negros, indígenas e pessoas LGBTQIA+. A falta de representatividade é um reflexo do racismo estrutural e do machismo presentes em nossa sociedade.
Quando temos apenas um grupo dominante representado na ciência, perdemos perspectivas e visões diferentes. Em resumo, a divulgação científica é uma ferramenta poderosa para aproximar a sociedade da ciência, mas precisa ser aprimorada. Precisamos estar atentos às diferenças, valorizar a diversidade e comunicar-nos de maneira clara e eficaz.
(Foto: Albert Andrade / Renata Clemente)
Por Renata Clemente, bióloga, professora e pesquisadora